Eslovênia: “melhor aluno” da UE pronto para explodir

Desde o início deste ano, avolumaram-se as nuvens que ameaçam o primeiro-ministro da Eslovênia, Janez Janša. Os sindicatos de trabalhadores e os cidadãos já estão nas ruas protestando contra a política de frugalidade do extremamente neoliberal governo do país.

Na realidade, as tensões sociais eclodiram em novembro do ano passado e prosseguiram apesar do rigoroso inverno, com dezenas de milhares de eslovenos protestando nas ruas da capital e das grandes cidades do país contra os gastos públicos e as medidas de frugalidade.

Segundo o primeiro-ministro, “ambas as medidas são indispensáveis e visam evitar que o Estado declare falência, por causa dos grandes déficits do setor bancário e do desemprego, que crescem incessantemente. Já as manifestações populares de protesto, nada mais são do que fascismo vermelho”.

Janša, até advertiu os manifestantes: “Vocês não podem vencer a polícia e o exército, que têm o dever de proteger os cidadãos. Os eslovenos não são ingênuos, nós resistiremos contra o caos, principal inimigo da liberdade”.

Com esta advertência, Janša não dirigiu-se somente aos manifestantes, mas, simultaneamente, procurou reagrupar e acionar seus correligionários, ameaçando-os com o “fantasma vermelho”, mas sem obter resultado.

Observadores políticos internacionais destacam que os tons dramáticos não são justificados, porque os indicadores econômicos mostram que a economia do país não encontra-se em má situação. A divida pública oscila em torno de 44% do Produto Interno Bruto (PIB), contra a média de 87% na Zona do Euro; o desemprego atingiu 8% da população economicamente ativa; e a inflação está abaixo de 3%. Somente os gastos públicos têm escapado, em 6% do PIB.

Com base nestes fundamentos econômicos formula-se a pergunta: por que os cidadãos eslovenos protestam e insistem? A resposta é simples. Porque veem que seu nível de vida piora seguidamente e sabem, muito bem, aliás, o que os espera se não for revertida a adotada política de frugalidade e a terapia de choque que o governo aplica com as privatizações e a anulação das conquistas sociais.

Após a dissolução da Federação de Iugoslávia, a Eslovênia continuou registrando um relativamente satisfatório percentual de crescimento econômico baseado em seu dinamismo industrial e sua posição geográfica (encruzilhada da Itália e Áustria).

IR incompleto

Durante a década de 1990 não acompanhou a evolução dos demais países da Europa Oriental, escancarando suas portas à economia de mercado, e conseguiu manter sob controle do Estado as grandes indústrias, as infraestruturas, as escolas e o sistema nacional de saúde (o que, exatamente, conseguiram dissolver na Bulgária, tornando-a o país mais pobre da União Europeia, aliás, o mesmo que está sendo feito agora na Grécia). Em 2004, a Eslovênia foi o primeiro novo país-membro da União Europeia, denominada “o melhor aluno da ordem europeia”.

Os sindicatos e o povo esloveno resistem. Nunca antes a resistência foi tão forte e nunca assumiu tanta amplitude. De acordo com dados de recente pesquisa, mais de 80% dos entrevistados exigiram a demissão do primeiro-ministro. A coalizão que surgiu após as eleições parlamentares do ano passado foi dissolvida, abandonando o campo do governo após a divulgação de um relatório da Comissão contra a Corrupção que revelou que Janša não declarava ao Fisco todos os seus rendimentos e bens.

Agora o governo é apoiado por apenas 36 deputados do total de 90 no Parlamento Nacional, e recorrer a novas eleições após estas evoluções todas surge como inevitável, apesar do fato que os políticos de todas as siglas partidárias estão envolvidos em escândalos. Mas o povo esloveno mostra-se decidido a continuar suas manifestações de protesto exigindo a transparência da vida política e o traçado de uma outra marcha para o país.

Petros Panayotídis em Monitor Mercantil