Não venha com conselhos! Conte-me uma história que te fez feliz…

Desde criança eu sempre gostei de ouvir histórias – não as dos livros, estes eu prefiria lê-los – gostava mesmo é de ouvir as histórias contadas por pessoas mais velhas – avós, tios-avós, velhinhas amigas da família… Alegrava-me ver o olhar nostálgico destas quando narravam à mim, os episódios favoritos de suas vidas. É como se os olhos sorrisem.

Lembro até hoje a satisfação da minha tia-avó ao falar sobre os bailes que frequentou, ao lembrar como era paquerada, como gostava de dançar e como foi a abordagem do marido ao conquistá-la. Eu fazia sempre mais perguntas, queria prolongar a narrativa. Via nisso uma troca de prazeres. Minha tia sentia prazer em narrar os melhores momentos da sua juventude. Eu tinha prazer em imaginar o cenário para sua narrativa.

Nunca gostei de bonecas, de fazer comidinhas de mentirinha… Não me interessava o mundo dos superheróis, das princesas e castelos. Meu mundo da imaginação era povoado pelas novelas que criava. Os personagens eram pessoas reais e eu me divirtia mudando-lhes o destino, criando-lhes realidades paralelas.

Cedo entendi, que os laços da amizade poderiam tornar-se mais estreitos após a troca de experiências de vida, após um boa e calorosa conversa. Muitas vezes eu dava o primeiro passo, falava algo sobre mim apenas para que o outro, se sentisse seguro para contar algo sobre ele.

Sim, quando eu era adolescente minha mãe vivia me dizendo que eu tinha uma certa tendência a inocência. Eu sempre soube que falar de si pode ser um risco. Podemos nos nos decepecionar confiando em pessoas com más intenções. No entanto,  nunca vivi uma vida digna de segredos ou mistérios, não havia nada que precisasse ou tivesse necessidade de esconder.  Segui pensando que os ganhos da buscar mais proximidade numa relação, sempre compensavam os riscos.

Vim morar na Eslovênia e sobreveio-me a estranheza. A estranheza de nunca ouvir histórias da vida privada.

Os eslovenos sempre mostraram muito interesse ao meu respeito, sempre me faziam perguntas, mas quando eu lhes devolvia as mesmas perguntas, estas quase sempre, eram respondidas em uma única frase. Quantas vezes eu nem consegui fazer desenrolar uma conversa.

Como está o trabalho?
Está tudo bem.

Como está a família?
Estão bem.

Como estão seus pais?
Estão bem.

Logo eu, que no Brasil fazia amigos com facilidade, até mesmo com pessoas que, normalmente, por falta de tempo, temos um contato rápido: porteiros, atendentes de lojas, motoristas de ônibus, cobradores, faxineiras…

Não é novidade para ninguém que os eslavos são mais reservados e não costumam falar da vida pessoal. Achava que tal característica poderia mudar com o convívio ou com o tempo, evidentemente me enganei.

São todos os eslovenos assim? Devolvo a pergunta: Todos os brasileiros são iguais?
Eu tive mais intimidade com meu marido  esloveno nos primeiros 3 meses de namoro do que com os meus dois últimos namorados brasileiros que fizeram parte dos últimos 8 anos que vivi no Brasil.

Isso não significa que os eslovenos não sejam simpáticos. Eles contam história de férias, de viagens, de conhecidos, falam sobre política, esportes, comida, podem até reclamar da sogra com facilidade…  Os jantares com eslovenos que tive entre amigos sempre foram animados.

Mas aqui falar de si, não significa um pequeno passo na construção de um laço mais estreito de amizade ou de maior proximidade para com o interlocutor. Significa apenas que você falou de si.

Houve certas vezes que ao conversar com o esloveno senti o mesmo que poderia sentir se contasse histórias à um padre. Ambos estão lá para te ouvir, mas a cena não é necessariamente uma conversa, faltava reciprocidade.

No curso de Terapia que fiz na Faculdade de Medicina de Liubliana haviam semanalmente sessões de terapia realizadas com um pequeno grupo de estudantes, todos eles eram psiquiatras ou psicólogos. Mesmo sabendo dos benefícios do falar, os benefícios da terapia de grupo, a terapia em si não se desenvolvia. Os alunos tinham uma notável dificuldade em falar sobre si. Talvez não seja exagero dizer que passamos mais tempo na terapia em grupo falando sobre as dificuldades em falar sobre si do que realmente falando sobre si. Inúmeras vezes ouvi os eslovenos mencionar que só tinham 3 ou 4 amigos nos quais podiam confiar as histórias da sua vida cotidiana.

Na última vez que estive no Brasil, há dois anos atrás, eu fui numa cabeleireira em Maragogi, AL. A vizinha da cabeleireira contou-me toda a sua vida amorosa em 3 horas. Lembro-me que após a cosversa, voltei para o hotel com um aperto no peito, não queria mais morar na Eslovênia. Sentia saudades do povo brasileiro, sentia falta dessa leveza, dessa falta de medo em compartilhar com estranhos as aventuras e desventuras da vida. Tinha saudades de ouvir histórias, saudades do calor de uma conversa amiga.

Segundo estranhamento
– Recebendo conselhos de quem você não tem intimidade. 

Como você brasileiro(a) se sente quando alguém que não lhe é familiar ou amigo, dá-lhe um conselho – com aquele tom imperativo na voz – de como  criar seu filho?

Nos grupos de mães que eu participo no Brasil, percebo que conselhos de estranhos, sobretudo conselhos não solicitados raramente são bem-vindos. O outro, o desconhecido, quando aconselha, quase sempre fala de si, do que viveu, se sua experiência pessoal. E a experiência pessoal de quem aconselha na grande maioria das vezes é diversa de quem recebe o conselho por inúmeras razões e fatores.

Cuidado com os conselhos que comprar,
Mas seja paciente com aqueles que os oferecem.
Conselho é uma forma de nostalgia.
Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo,
Repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.
Filtro Solar (autor desconhecido)

Sim, porque uma vez que você vira mãe, a esfera da sua vida privada adquire outro formato. Quando penso que formato é esse, a primeira imagem que me vem à mente é um carrossel, onde você e sua família ficam no centro, girando, enquanto sua vida é encenada. Do lado de fora estão os trausantes que passam pela cena optando ou não por dar palpites na criação dos seus filhos. Nasce uma criança, nasce automáticamente uma incrível necessidade em muitas pessoas de pregar “sabedorias” para a vida alheia.

Entre meus amigos brasileiros, acima de tudo, entre os melhores amigos, há uma espécie de respeito mútuo. Raramente damos conselhos não solicitados. Há uma espécie de entendimento, nunca proferido, de que a vida e a experiência do outro é sempre diferente da minha.

Se os conselhos são solicitados, a conduta dos meus amigos é darem exemplos, serem cuidados no tom da voz, na escolha das palavras. Trata-se de dar ao amigo solicitante, alternativas, outra visão sobre o assunto e não de ditar um caminho a ser seguido. É um respeito ao saber do outro,  no direito e na responsabilidade do outro de escolher seu próprio caminho.

Como na Eslovênia, as pessoas falam pouco de si, como é mais difícil estreitar laços de amizades, estabelecer intimidades, é natural que eu e outras mães latinas que aqui moram, vejam com um certo estranhamento, até mesmo como um incômodo, pessoas que não são da nossa intimidade dando-nos conselhos sobre como devemos conduzir a nossa vida ou como devemos criar os nossos filhos.

Por exemplo, uma latina que veio aqui para se casar, geralmente acaba tendo filhos nos próximos 5 anos. Levando as dificuldades para aprender o idioma, para se inserir no mercado de trabalho, as possíveis dificuldades iniciais para criar novas relações de amizade, estabelecer intimidades… É possível concluir que seu círculo social será mais restrito, ou até mesmo compostos de pessoas com quem ela não tenha uma real afinidade, nem mesmo compartilhe os mesmos interesses.

Imagine dois cenários, numa cena corriqueira:

. Tia palpiteira, solteirona no Brasil
Ela tem mais de 60 anos, apesar de não ter filhos, sempre “ouviu falar” de experiências que funcionam com os filhos dos outros. Diz que o problema dos seus filhos é disciplina. Ela é a tia que você conviveu muito tempo, passou várias tardes juntas, trocou intimidades. Vocês tem uma relação carinhosa, você sabe que ela não se ofenderia se chamasse o ex-namorado dela de safado.

. Tia palpiteira, solteirona na Eslovênia
Ela tem mais de 60 anos, apesar de não ter filhos, sempre “ouviu falar” de experiências que funcionam com os filhos dos outros. Diz que o problema dos seus filhos é disciplina. Você não sabe nada sobre a vida dela, se encontraram no máximo 10 vezes na vida, nunca tiveram uma conversa amiga, trocaram  receitas.

Após ouvir tantas reclamações de sogras eslovenas, fui tentada a imaginar que estas ainda eram mais palpiteiras e intrometidas do que as brasileiras. Pensando melhor, gente chata existe em todo lugar. Eu diria também sogra boa e gente boa também existe em todo lugar. O que nos irrita mesmo é ouvir daquele que não é meu íntimo,  daquele que não me ajuda, certezas sobre minha vida.

Oração de uma mãe aos palpiteiros
Ajude-me com a louça, leve os pequenos para passear para que eu possa relaxar, para que eu possa sair com o marido. Ajude-me passar roupa, ajude-me limpar casa, faça-me uma supresa, traga almoço pronto em casa. Vá ao supermercado para mim. Acredite é dessa ajuda que preciso!
Não ceda a tentação de achar que sabes mais da minha realidade do que eu. Ou que em tempos de google, artigos científicos disponíveis na internet, grupos e fóruns de mães na internet, eu não saberia procurar informação para aquilo que preciso.
Senão conseguir ceder a tentação de ditar “sabedorias”, seja doce, seja gentil ao proferi-las. Ofereça exemplos, não me dite ordens. Lembre-se, preciso reservar paciência para o cuidado com os pequenos, então facilite-me a vida doméstica e se quer me ajudar, não ofereça conselhos, ofereça braços.

Amém!

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